Domingo, 18 de Maio de 2008

Alterações do clima alteram sistemas naturais

Um grupo de cientistas ligados ao IPCC conduziu uma análise estatística sobre tendências dos sistemas biológicos e físicos, chegando à conclusão de que as alterações do clima estão a alterar o comportamento de animais, plantas, rios e outros sistemas naturais.



O mapa, retirado do relatório para o IPCC, sobrepõe as mudanças na temperatura média entre 1970 e 2004 com mudanças nos dados para sistemas físicos e biológicos. Em cerca de 90% dos casos a tendência encontrada para os sistemas naturais está de acordo com os efeitos previstos do aquecimento global.
A maior desvantagem do estudo é a não inclusão de dados de muitos países de África, América do Sul e Oceania. Mas, tal como afirma um dos investigadores, Cagan Sekercioglu, nem sequer deveria ser necessário publicar este tipo de estudos nesta altura, dada a evidência disponível sobre os efeitos das alterações climáticas.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

A guerra dos números continua

O Japão entrou numa nova fase. Já não é contra a fixação de objectivos para a redução de emissões e fixou o objectivo de reduzir as suas emissões em 60% a 80% até 2050. Obviamente que o governo japonês nada fará para cumprir esta promessa - é sempre fácil para um político que está no poder por 4 ou 5 anos fazer promessas para um prazo de 40 ou 50 anos.

Carro eléctrico desenvolvido em Israel

Um ambicioso projecto para desenvolver um novo carro eléctrico está a ser desenvolvido em Israel, com o apoio da Renault. Em 2010 já deverá ser possível ver carros com zero emissões a circular em Israel, assim como na Dinamarca. Para o efeito será criada uma rede de postos de carregamento de baterias e de estações para a troca de baterias.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Como ganhar dinheiro com o aquecimento global

Segundo o ETC Group, as maiores empresas ligadas aos agroquímicos e à agricultura estão a patentear genes de plantas com o objectivo de desenvolver culturas transgénicas resistentes a alterações do clima. Num momento de crise alimentar global, o aumento do poder das multinacionais do sector agro-alimentar é uma má notícia.

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Hipócritas!

Nada como uma notícia de um tablóide britânico a denunciar a hipocrisia das celebridades para animar o dia. "Meet the stars:"

  • John Travolta, com os seus cinco aviões,
  • Chris Martin, vocalista dos Coldplay, com a sua pegada de carbono gigantesca,
  • Leonardo DiCaprio, o homem que está tão empenhado em reduzir a sua pegada de carbono que até considera deixar um dia destes de utilizar o jacto particular,
  • Brad Pitt e Angelina Jolie, que necessitarão em breve de vários jactos particulares para transportar uma família que mais parece a Assembleia Geral da ONU,
  • Barbra Streisand, que nos tenta convencer a encher a máquina de lavar a roupa antes de a ligar mas que numa tournée exigiu que colocassem 120 toalhas de banho no seu quarto,
  • Madonna, uma das estrelas do Live Earth e também uma investidora em combustíveis fósseis,
  • O Príncipe Carlos, que viajou em primeira classe num avião com uma equipa de 14 pessoas para receber um prémio pela sua dedicação ao ambiente.
Numa nota bem mais trágica, Ken Livingstone perdeu as eleições para a Câmara de Londres. Não é certo o que acontecerá à política ambiental londrina com o conservador Boris Johnson no poder.

UE insiste em alimentar carros com pessoas

Juergen Voegele, director do departamento de agricultura e desenvolvimento rural do Banco Mundial defende que os subsídios para a produção de agrocombustíveis deverão ser reduzidos. Jean Ziegler, relator da ONU para o Direito à Alimentação, afirma que a alta dos preços dos alimentos, que causou a perda de 40% do poder de compra do Programa Mundial de Alimentos em três meses, se deve essencialmente à promoção dos agrocombustíveis e da especulação bolsista. Mas a UE, contra todas as evidências, insiste em negar a ligação entre a sua política genocida de agrocombustíveis com o aumento no preço dos alimentos. No mundo real, o carro do rico continua a valer mais que a vida do pobre.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Aquecimento da Antárctida menor que o esperado



O National Center for Atmospheric Research, em conjunto com a Ohio State University, comparou as previsões para o aquecimento do Pólo Sul com as temperaturas registadas, para descobrir que o aumento da temperatura foi menor que o previsto. Os modelos já previam um menor aumento nas temperaturas na Antárctida que no Ártico mas na realidade a diferença foi bem maior que o esperado, sobretudo tendo em conta que o Pólo Norte aqueceu mais que o previsto.
Ironicamente, foi o buraco do ozono que alterou os padrões do vento de forma a que o ar quente não atingisse a superfície. A excepção é a Penínsua da Antárctida, onde os ventos arrastaram o ar quente do norte.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Greenpeace contra sequestro de carbono

A Greenpeace, no seu relatório False Hope, denuncia o facto de o sequestro de carbono não ser uma solução viável para o aquecimento global. A tecnologia de Captura e Armazenamento de Carbono é apresentada pela indústria ligada aos combustíveis fósseis como um meio de ter centrais termoeléctricas com zero emissões mas apresenta vários problemas:

  • Não estará disponível antes de 2030, na melhor das perspectivas,
  • Aumenta entre 10% e 40% o consumo de energia das centrais,
  • É arriscada, porque não podemos assegurar que o carbono armazenado não se vai escapar,
  • É extremamente dispendiosa,
  • Implica riscos futuros para a saúde e para os ecossistemas.

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Aumento nas emissões em 2007



Em 2007, as concentrações de dióxido de carbono aumentaram em 0.6 %, atingindo as 385 partes por milhão. Os dados são da NOAA, que relata um surpreendente aumento nas concentrações de metano, que haviam estabilizado em 1998. Este aumento pode ser explicado pela industrialização da Ásia mas também pode ser um sinal de que o permafrost começou a derreter, o que seria uma péssima notícia.



Caso se confirme um aumento das emissões de metano causado pelo degelo do permafrost, estaremos perante um mecanismo de retro-alimentação que amplifica o efeito da poluição industrial. Este é o pior cenário que podemos enfrentar, na medida em que implica que as alterações climáticas se perpetuarão de forma autónoma.

As diferenças na pegada de carbono

A pegada de carbono de um ocidental é muito superior à de um cidadão do terceiro mundo, já o sabemos. Mas um grupo de estudantes do MIT descobriu que mesmo um sem-abrigo que viva nos EUA apresenta um nível de emissões de CO2 individual de 8,5 toneladas por ano, mais do dobro da média mundial (4 toneladas). O expõe os limites da acção individual e mostra-nos que o desafio enfrentado pela sociedade hiper-consumista do mundo desenvolvido é colossal.

Uma pausa para refrescar

Um estudo do Instituto Leibniz para as Ciências Marítimas, de Keil, e do Institudo Max Planck Institute para a Meteorologia, Hamburgo, abordou os modelos climáticos de forma pouco ortodoxa, chegando a resultados surpreendentes. Partindo de uma escala temporal mais curta que o normal, concentraram-se nos que os modelos clássicos consideram como "ruído", de forma a incorporar as variações naturais na temperatura global causadas pelas correntes oceânicas. A conclusão a que chegaram é que estas correntes anularão o aquecimento global durante a próxima década. Os gases com efeito de estufa continuarão a acumular-se, contudo, pelo que a temperatura global irá disparar depois de ultrapassada esta variação natural.

"Desertos oceânicos" expandem-se

Um estudo de Lothar Stramma, da Universidade de Kiel, publicado na Science, apresenta más notícias para os oceanos. As zonas hipóxicas dos oceanos tropicais, onde as concentrações de oxigénio são demasiado reduzidas para permitir a vida animal ou vegetal, estão a aumentar. O resultado é consistente com o previsto nos modelos climáticos, na medida em que o aumento da temperatura das águas superficiais impede a mistura de águas entre as diversas camadas do oceano.

Energia solar barata em breve?

A empresa americana Sunrgi promete lançar no mercado dentro de cerca de um ano um novo modelo de painel solar fotovoltaico capaz de ser competitivo com o carvão. Baseando-se na ampliação da luz solar utilizando lentes especiais, um painel destes produz energia a um quarto do custo dos seus concorrentes. O melhor de tudo é que pode ser aplicado em habitações.

Emissões aumentarão mais que previsto

Ross Garnaut, o conselheiro do governo australiano para as alterações climáticas, reviu em alta as projecções do IPCC para o aumento nas emissões de gases com efeito de estufa. Segundo Garnaut, as emissões em 2030 ultrapassarão em 14% as do cenário mais pessimista do IPCC, sendo quase o dobro do previsto no Relatório Stern.
O factor que explica esta disparidade nas projecções é o rápido aumento das emissões na Ásia.

Cortes de 80% necessários

Até 2050, os países ricos deverão reduzir as suas emissões per capita em 80%, enquanto que os países pobres deverão comprometer-se com reduções em 2020. Quem o diz é Nicholas Stern, baseando-se no tímido objectivo de estabilizar as concentrações de CO2 em 500 ppm, o que garantiria um aumento da temperatura global abaixo dos 2ºC.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

A melhor solução é deixar a carne

Christopher L. Weber e H. Scott Matthews, da Carnegie Mellon University, defendem que damos demasiada importância às food miles: o transporte contribui com apenas 11% das emissões relacionadas com a alimentação nos EUA. Se queremos reduzir as nossas emissões de forma significativa, defendem, devemos consumir menos carne e lacticínios.

Aquecimento global vs ozono

Paul Crutzen, prémio Nobel da Química, defende que podemos travar o aquecimento do planeta injectando partículas de enxofre na atmosfera. Agora, um artigo da Science diz que, embora possa reduzir a temperatura global, uma solução deste tipo pode agravar a destruição da camada do ozono nos pólos. O que é irónico é que Crutzen foi um dos cientistas que descobriu o buraco do ozono.

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

O biocombustível certo

A Associação para o Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo (ADFP) vai produzir biodiesel a partir de óleos usados nas suas cozinhas e em restaurantes que aderiram ao projecto. Como resultado, empregos serão gerados para os mais excluídos e milhares de euros serão poupados em combustíveis. Tudo sem retirar comida da boca dos mais esfomeados.

Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Carros valem mais que pessoas

O preço dos alimentos não pára de aumentar, levando a motins em todo o mundo. As causas são variadas, desde o aumento do preço do petróleo à especulação bolsista com commodities, passando pelas alterações climáticas. Segundo a FAO, os preços dos alimentos aumentaram em 40% em 2007, sendo os aumentos de 42% nos cereais e de 80% nos lacticínios. Desde 2005, os preços dos alimentos já aumentaram em 83%, diz o Banco Mundial.
No Haiti, uma multidão farta de comer "pica", uma pastilha feita de terra, causou um motim social sem precedentes. No Paquistão, militares guardam os stocks de cereais. Em todo o mundo, multiplicam-se as greves e manifestações contra os aumentos nos preços dos alimentos.
Num momento em que 37 países enfrentam crises alimentares, insistir na promoção dos agrocombustíveis é um crime contra a humanidade sem precedentes. Mas os governantes do mundo ocidental continuam a preocupar-se mais com a indústria automóvel que com os que morrem à fome no mundo: a Comissão Europeia já anunciou que não recua um milímetro na sua política para os agrocombustíveis.

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Porque duvido dos projectos de plantação de árvores

Durante anos, o presidente da Nigéria inaugurou uma nova plantação de árvores no dia mundial do ambiente. Ao todo, foram plantadas 50 milhões de árvores. Agora sabe-se que 37,5 milhões vão morrer por falta de água.
A iniciativa vai ter continuidade, já que o Banco Mundial ofereceu fundos à Nigéria para plantar 1 bilião de árvores. Quem sabe quanto dinheiro esta plantação não renderá no mercado de carbono mundial...

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

Deixem os poluidores em paz

"Um sistema de comércio de emissões dá um incentivo e recompensa a redução de emissões. Os impostos penalizam as emissões. Nas nossas economias as pessoas estão muito mais motivadas pela perspectiva de ganhar dinheiro do que pelo pagamento de impostos." A frase é de Veronique Bugnion, da Point Carbon. Debate com Kevin Smith, da Carbon Trade Watch aqui.

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

A validade das previsões sobre o clima

Quando um negacionista climático pretende diminuir a importância do conhecimento científico sobre as alterações do clima, normalmente afirma que não nos podemos fiar em modelos abstractos. Mas um estudo de meteorologistas da Universidade de Utah apresenta evidência no sentido de os modelos utilizados para prever a evolução do clima serem muito fiáveis. Comparando cerca de 50 modelos elaborados nas últimas duas décadas com os dados reais do clima, os pesquisadores chegaram assim à conclusão de que os desvios entre as previsões e a realidade são pequenos e que as estimativas do IPCC atingiram um nível de realismo sem precedentes.

A importância do carbono negro

O impacto da emissão de aerossóis no clima global é ainda mal conhecido. Sabemos que alguns aerossóis criam uma camada de poeiras que bloqueia parte da radiação solar, como é o caso do dióxido de enxofre, responsável pelo "arrefecimento global" verificado nos anos 70. O cientista V. Ramanathan, da Scripps Institution of Oceanography na Califórnia, resolveu antes concentrar-se num aerossol cujo efeito é o de aumentar a temperatura: o carbono negro.
O resultado do estudo publicado na Nature Geoscience é que este poluente criado pela queima de carvão e biomassa e pelos motores a gasóleo pode ser o segundo maior contribuidor para o efeito de estufa. Mas o caso é um pouco mais complicado. Dorothy Koch, do Instituto Goddard da NASA, assinala que a permanência dos aerossóis na atmosfera é curta, pelo que apenas poderão ter um efeito no clima global a curto prazo. Por outro lado, não é fácil relacionar as concentrações de carbono negro na atmosfera com a actividade humana.

Não é o sol, estúpido!

Um grupo de investigadores das Universidades de Lancaster e Durham, no Reino Unido, conduziram um estudo com o fim de avaliar se existe uma ligação entre o aquecimento global e os raios cósmicos. Segundo uma teoria do cientista dinamarquês Henrik Svensmark muito cara aos negacionistas, o aumento da temperatura global pode ser explicado por alterações nos ventos solares, que influenciam a formação de nuvens. O estudo desmentiu esta teoria mas Svensmark não se deixa impressionar. Como já era de esperar.

Mercado de carbono financia atentado ecológico

Uma reunião em Londres juntou governos africanos, bancos e construtoras para planear a construção da maior barragem do mundo no Rio Congo. A barragem Grand Inga produzirá 40.000 MW, sendo um sonho acalentado desde os anos 80.
Espera-se agora que Grand Inga seja construída em 2022, podendo gerar avultadas quantias pela venda de créditos de carbono através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Os seus proponentes apresentam o projecto como uma grande oportunidade de desenvolvimento para África, claro.
Sabemos que atingimos o cúmulo do neo-liberalismo quando se coloca o rótulo "desenvolvimento sustentável" num investimento que não ajuda os locais, destrói o meio ambiente e gera uma enorme rede de corrupção.

Futuro negro

Segundo a Agência Internacional de Energia, o plano de "combate" às alterações climáticas de Bush resultará num aumento nas emissões de gases com efeito de estufa de 23% em 2025, relativamente a níveis de 1990. Do outro lado do Atlântico, as promessas relativamente a reduções nas emissões caem em saco roto: Portugal ultrapassou já o máximo permitido por Quioto em 13% em 2006.

Stern revê em alta as suas previsões

Em 2006, Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial, apresentava ao governo britânico um relatório no qual defendia a necessidade de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 25% para evitar alterações climáticas catastróficas. Mas Stern hoje admite que as suas estimativas dos custos das alterações climáticas estavam erradas. Não só as emissões têm crescido a um ritmo superior ao esperado como a capacidade de absorção de dióxido de carbono pela natureza é menor que o que se pensava. Será então necessário reduzir em 50% as emissões globais até 2050, o que implica um corte para os EUA de 90%.

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Mais do mesmo

George W. Bush apresentou recentemente o seu plano para as alterações climáticas. A ideia central é muito simples de entender: os EUA não vão fazer nada.
O objectivo da actual administração americana é o de travar o crescimento das emissões de gases com efeito de estufa em 2025. Até 2015, as emissões vão aumentar, tendo que decrescer posteriormente. O plano baseia-se essencialmente na promoção de novas tecnologias para reduzir a intensidade em carbono da queima de combustíveis fósseis para produção de energia e da eficiência energética. Incidindo nas empresas produtoras de energia, trata-se de um acordo voluntário sem quaisquer metas estabelecidas. Mais que isto é impossível porque a China e a Índia não aceitam cortes nas emissões.
Segundo Bush existem duas formas de reduzir as emissões. A forma errada é "aumentar os impostos, duplicar mandatos ou exigir cortes nas emissões súbitos e drásticos que não podem ser alcançados e que vão certamente prejudicar a nossa economia". A forma certa é "fixar objectivos realistas para a redução nas emissões consistentes com os avanços tecnológicos, enquanto aumentamos a nossa segurança energética e asseguramos que a nossa economia possa continuar a prosperar e crescer".
O Ministro do Ambiente alemão, Sigmar Gabriel, rotulou este discurso como "Neanderthal".

Alterações climáticas e conflitos

Períodos de crise económica estão frequentemente na base de muitos conflitos. As alterações do clima têm portanto como consequência a criação de conflitos locais sobre recursos naturais, como a água ou o solo, em zonas do planeta especialmente desfavorecidas onde uma seca ou uma época de chuva prolongada pode significar a morte de centenas de pessoas.
Mais surpreendente será encontrar uma correlação entre as alterações climáticas e... a execução de "bruxas". Edward Miguel, da Universidade da Califórnia, descobriu que os homicídios de mulheres acusadas de bruxaria na Tanzânia rural duplicam quando se verificam grandes alterações na pluviosidade. Já anteriormente Emily Oster, da Universidade de Chicago, tinha encontrado uma correlação entre variações no clima e julgamentos por bruxaria na Europa entre 1520 e 1770. Sendo as alterações climáticas que enfrentamos bem mais severas que as do passado, isto são más notícias para as mulheres de zonas rurais onde a ignorância leva a população a acreditar em bruxarias.

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

O sonho de um burocrata

O Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética (PNAEE) é o sonho de qualquer burocrata. Começa desde logo pela forma como é apresentado: num powerpoint, para falar em burocratês. Assim, torna-se mais fácil a sua leitura, sobretudo para os jovens que pululam pelas escolas com os seus portáteis munidos com internet móvel. Mas, mais importante que isso, assim se torna mais difícil destrinçar o que está por detrás das promessas do governo.
Quem quis saber mais sobre este plano pela comunicação social ficou mal informado. Todas as notícias que vi até hoje falam num objectivo de redução no consumo de energia em 10% até 2015 (ver, por exemplo, o Público e a Renascença). Uma leitura minimamente atenta do plano permite-nos, contudo retirar outras conclusões.

Como se pode ver pelo gráfico retirado do PNAEE, o que está previsto não é reduzir o consumo mas antes reduzir a taxa de crescimento do consumo de energia. Ou seja, o consumo de energia será 10% mais baixo em 2015 relativamente ao cenário de base mas mesmo assim espera-se um crescimento no consumo de cerca de 9% entre 2007 e 2015. Visto desta perspectiva, o objectivo traçado pelo governo parece ainda mais absurdo, tendo em conta que vivemos num país onde o desperdício da energia consumida atinge os 60% e que, segundo os especialistas, podemos reduzir o nosso consumo de energia em 20% sem prejuízo económico.
Confundir reduções relativas com reduções absolutas é algo comum no discurso dos burocratas (basta ver como tanto Bush como Gore confundem reduções na intensidade das emissões de gases com efeito de estufa com reduções nas emissões). Outro lugar comum é a fé desmesurada nas novas tecnologias, vistas como a solução miraculosa para conjugar o consumismo com a preservação do meio ambiente. Vejamos o que diz o PNAEE, ponto por ponto.
No domínio dos transportes, o governo propõe-se a promover a substituição de automóveis antigos e incentivar a aquisição de híbridos e a instalação de GPS em automóveis novos, de forma a que os condutores possam escolher rotas que lhes permitam poupar combustíveis. Está prevista no PNAEE uma transferência modal de 5% do transporte individual para o transporte colectivo, é certo, mas não só estamos perante um objectivo ridiculamente modesto como nunca é explicado como vai ser atingido.
Para os edifícios residenciais ou de serviços o cenário não é diferente. A solução para a redução nos consumos reside num misto de painéis solares, lâmpadas de poupança e de electrodomésticos super-eficientes. Nunca é realizada uma reflexão sobre o facto de a sociedade de consumo nos inundar as casas com aparelhos devoradores de energia, anulando as reduzidas poupanças que atingimos por mudar as lâmpadas ou desligar os aparelhos que estão em stand-by. Pior ainda, o consumismo é directamente incentivado: alguém que substitua um electrodoméstico de frio classe A por um classe A+, por exemplo, é beneficiado com um cheque de 50 euros, embora esteja presente um comportamento claramente prejudicial do ponto de vista ambiental.
Uma medida, contudo, incide sobre o consumo total de energia das habitações: uma pessoa que reduza o seu consumo de electricidade será presenteada com um cheque que pode atingir 20% do gasto anual de electricidade em 2 anos se a redução atingir os 20%. Não seria uma má ideia, não fosse o facto de ser difícil de controlar a sua aplicação de forma a evitar situações de fraude.
No PNAEE está também presente, como não poderia deixar de ser, o novo dogma do ambientalismo corporativo: a proibição das lâmpadas incandescentes. O Governo propõe acabar com as velhas lâmpadas de Edison em 2015, a Quercus quer-se livrar delas em 2011. Nenhum se preocupa com as consequências sociais de obrigar as pessoas a comprar lâmpadas substancialmente mais caras num país com um baixo nível de vida, sem que haja necessariamente uma poupança na conta de electricidade que compense o investimento. Eu descobri da pior maneira que, tendo em conta que as lâmpadas fluorescentes compactas duram pouco se forem ligadas e desligadas com frequência, a sua instalação em corredores, por exemplo, não é compensatória. Mas os burocratas tecno-optimistas desvalorizam qualquer crítica que se possa fazer às novas lâmpadas de poupança, preferindo acreditar que todos os problemas serão solucionados quando forçarmos toda a gente a comprá-las.
A indústria é presenteada com um acordo voluntário. Não podemos esperar que os preciosos interesses económicos sejam postos em causa, logo tudo depende da boa vontade dos industriais. Tudo continua na mesma, portanto.
O PNAEE demonstra bem qual é a visão do governo para o futuro. Não se questiona o consumismo ou as vicissitudes do sistema económico vigente. Pelo contrário, a ideia central é a de criar uma economia de mercado "verde", como se a solução para a crise ecológica estivesse no consumo desenfreado de bens rotulados como ecológicos pelos seus produtores. O sonho de qualquer burocrata, portanto. Independentemente de ser um burocrata do governo, de um partido ou de uma ONG.

Mar pode subir um metro e meio

Segundo o Laboratório Oceanográfico de Proudman, sediado no Reino Unido, a subida do nível médio do mar pode triplicar as estimativas publicadas pelo IPCC. Através de um modelo que reproduz os movimentos do nível médio do mar ao longo dos últimos 2000 anos, os cientistas foram assim capazes de incorporar efeitos de retroalimentação ocultados nas análises mais conservadoras.
Steve Nerem, da Universidade do Colorado, por seu lado, prevê um aumento de 1 metro até 2100. Faltam, no entanto, estudos para saber como será o padrão da subida do mar nos vários pontos do globo. Certo é que milhões de pessoas nos países sub-desenvolvidos ficarão sem casa ainda neste século.

Automóveis em expansão em Portugal

Segundo a Cetelem, dentro de quatro anos Portugal terá mais carros por habitante do que o Japão, apresentando uma das taxas de motorização mais elevadas da UE. Num país onde se desinveste nos transportes públicos e se investe em auto-estradas e pontes rodoviárias, não era de esperar outra coisa.

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Os custos da guerra no Iraque

275 milhões de dólares por dia numa guerra por petróleo que foi comparada por José Manuel Fernandes, num cúmulo de imbecilidade, ao 25 de Abril. As contas são do think tank Foreign Policy in Focus.

Más notícias para Homer Simpson

Na Convenção do Instituto de Produção de Cerveja e Destilação Neo-Zelandês, o cientista Jim Salinger traçou um retrato negro para o futuro da cerveja. Segundo este cientista, as culturas de cevada, um dos ingredientes da cerveja, serão afectadas negativamente pelas alterações climáticas. Os produtores respondem que já neste momento os preços estão a aumentar por causa do desvio de cultivos para agrocombustíveis.
Será que ainda veremos manifestações contra o aumento do preço da cerveja?

Sábado, 12 de Abril de 2008

Banco Mundial financia carvão

Uma mega-central termoeléctrica a carvão na Índia vai ser financiada pelo Banco Mundial. Segundo os seus promotores, esta central é menos poluente que as existentes na Índia, o que não deve ser difícil. Como é óbvio, nem sequer foi equacionada a hipótese de recorrer a um misto de energias renováveis, o que diz muito sobre as intenções do Banco Mundial.

Mercado de carbono é um grande negócio para os maiores poluidores

O sistema de comércio de emissões da União Europeia vai permitir às empresas geradoras de electricidade obter lucros extraordinários na ordem dos 71 biliões de euros entre 2008 e 2012. Quem o diz, curiosamente, é a WWF, uma associação que sempre defendeu o mercado de carbono.

Koalas ameaçados

Cientistas australianos da Univerdidade de James Cook descobriram que o aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera reduz o conteúdo nutricional nas folhas de eucalipto e aumenta a teor de taninos, uma toxina natural. Isto é uma má notícia para animais como o famoso koala, cuja alimentação consiste exclusivamente nestas folhas.

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Já ninguém defende os "biocombustíveis"

O FMI acusa a proliferação de agrocombustíveis de ter contribuído para metade do aumento dos preços de produtos alimentares. O Banco Mundial diz que retrocedemos 7 anos na luta contra a pobreza em apenas uns meses. O conselho científico da Agência Europeia para o Ambiente defende que a União Europeia deve suspender o seu plano de incorporar 10% de agrocombustíveis na gasolina e gasóleo até 2020.
Como é que alguém pôde pensar que isto seria uma boa ideia?

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Acordo de povos da floresta

Povos que vivem nas florestas de onze países da América Latina, em conjunto com representantes de indígenas do Congo e da Indonésia, assinaram um acordo para a cooperação em negociações climáticas. O Acordo de Manaus forma assim uma coligação que visa influenciar as negociações para um acordo pós-Quioto de forma a que sejam assegurados os direitos de quem tem defendido as florestas tropicais contra os interesses dos mesmos capitalistas que agora dizem querer preservá-las.

Sábado, 5 de Abril de 2008

Dedicado ao 5º aniversário da guerra por petróleo

Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Alemanha recua na promoção de agrocombustíveis

O governo alemão vai recuar na sua decisão de aumentar de 5% para 10% a proporção de etanol na gasolina em 2009. A razão é simples: grande parte dos automóveis não estão preparados para utilizar o E10, combustível que resulta da mistura de nove partes de gasolina com uma parte de etanol. Ironia das ironias, a incapacidade de mudança da indústria automóvel acabou por funcionar a favor da causa ambiental.

Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Algas no deserto

No meio do deserto do Texas, nasce o Vertigro, um sistema de criação de algas para produção de biocombustíveis. Ao contrário dos tradicionais agrocombustíveis, estes combustíveis são sustentáveis, pois requerem muito pouco espaço para criação e zero hectares de terras aráveis. Como bónus, é ainda possível instalar tanques de criação de algas perto de fontes de emissões de CO2, sequestrando-se parte deste gás com efeito de estufa.
Infelizmente, ainda não dá para saber quando será viável economicamente produzir combustível a partir de algas.